quarta-feira, 18 de novembro de 2009

“O Engenho de Zé Lins” – Vladimir de Carvalho

Quando assisti pela primeira vez “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos, ainda adolescente, compreendi que estava diante de uma grande obra cinematográfica. Inclusive, se é possível, maior do que a literária. Sem tirar o esplendor da obra de Graciliano, o contrário. Assisti várias vezes depois, com a mesma percepção. “Doutor fresco” voltei a assistir Vidas Secas. Senti-me tão pequeno que não tive coragem de mostrar minha recente tese de doutorado por uns bons pares de anos. Graciliano Ramos e Nelson Pereira dos Santos já diziam tudo que eu tentara dizer, com genialidade e sabedoria muito maiores que a minha. Continuo assistindo e lendo Vidas Secas. Cada vez me impressiono mais com esses autores. Sim porque acho hoje que Vidas Secas deixou de ser só do grande Graça para ser também de Nelson Pereira, afinal a obra cinematográfica agiganta a literária, caso muito raro e tecnicamente dificílimo de acontecer.

Por esses dias assisti o “Engenho de Zé Lins”, do cineasta paraibano Vladimir de Carvalho. Sempre gostei de José Lins do Rego. Na adolescência foi quem me deu grande prazer de ler. Não gostava de José Alencar, a quem nos obrigavam a ler no ginásio. Até hoje não gosto. Tenho até trauma daquele “Tronco do Ipê”, considerado genial pelos críticos literários e que eu nunca descobri essa genialidade. Meu escritor era Zé Lins. Com Zé Lins eu me identificava. Vivia Meus Verdes Anos, admirava o Moleque Ricardo, os Cangaceiros, o Menino de Engenho; a Pedra Bonita... Viajei por suas paisagens e dramas logo cedo. Construí, no meu imaginário, ainda cedo, a arquitetura dos engenhos Corredor/Itapuá.

Depois foram me incutindo que Zé Lins era um escritor menor. Meu complexo de inferioridade “caririzeira” unido a minha “matutice” crônica, me fizeram ir aceitando essa injustiça. Fui tornando meu grande escritor da juventude, pequeno. Apenas um memorialista, como dizem os críticos. Eu esperava alguém me encorajar a proclamar Zé Lins como um grande escritor da língua portuguesa. O Vladimir de Carvalho fez isso. Deu-me essa coragem.

Após assistir o filme de Vladimir de Carvalho, se eu tivesse alguma veia poética continuaria o poema de Mário de Andrade, Manhã; quando ele fala numa tempestade de homens como Lênin, Prestes, Ghandi[1]. Falaria dessa tempestade de homens como Zé Lins e Vladimir de Carvalho.

O Documentário é um poema, em prosa livre. Desses que ao fim, nossa alma está mais humanizada. Vladimir reúne depoimentos de contemporâneos de Zé Lins, uma entrevista dele, em Portugal (único registro sonoro de Zé Lins); Imagens de filmes baseados na obra de Zé Lins e imagens dos engenhos, do passado e da atualidade. O filme é, portanto, uma vingança contra a crítica literária passional e preconceituosa e uma denúncia social inteligente, digna. A altura dos dois. Realizada com humor, drama e sabedoria. O estilo Vladimir é a marca principal. Quem já teve a oportunidade de assistir a outros filmes/documentários dele já está acostumado. Por exemplo, aquele sobre a UNB, ou a invasão da UNB. Identifica-se imediatamente o mesmo estilo. Um cinema militante sem ser panfletário, o contrário: profundo, dialético, essencialista, em movimento.

Considero que Zé Lins foi trazido ao lugar que merece. Aliás, no filme, Carlos Heitor Cony chega a dizer que a Semana de Artes Moderna e todo movimento modernista projetado a partir de 22, que costumamos registrar como o grande acontecimento em nossa literatura e nas artes em geral, significa muito pouco em comparação com a literatura dos “nortistas”, destacando especialmente Zé Lins. Lavei a alma.

Precisa agora, para completar o trabalho magistral de Vladimir de Carvalho, que as forças sociais ainda vivas da Paraíba se mobilizem para recuperar imediatamente o universo vivido e narrado por Zé Lins. Fazer o que os russos fizeram com Tolstoi, Gorki. Os franceses com Victor Hugo, Zola, e por aí vai. Essa é a nossa missão.

Campina Grande, 08 de dezembro de 2008, dia de Iemanjá/Nossa Senhora da Conceição.

José Jonas Duarte da Costa, iniciando imediatamente uma releitura de toda obra de Zé Lins.

Abraço todos e todas



[1] Mário de Andrade, 1928.

Um comentário:

  1. Caro Jonas, bem vindo a inevitável mundo dos BLOG´s.

    Abraços.

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